transformações à mesa

transformações à mesa

Minhas primeiras memórias na cozinha são sempre relacionadas à minha avó Pipida. Me recordo constantemente da cozinha e do jeito dela, da forma com que ela acabou vivendo sua vida na beirada do forno. Provavelmente a escolha inicial não foi dela. Viveu numa época em que se casava muito cedo – ela se casou com 14 anos! – e que, infelizmente, as mulheres não tinham escolha que não fosse cuidar da casa e filhos. Nem por isso ela foi infeliz. Porque soube transformar sua vida em pequenas porções de bem e felicidade. Morou muitos anos na roça, e amava colher mexericas pra comer na beirada do pé mesmo. Cozinhava todos os dias pra família, não pensando somente em fazer aquilo pela necessidade, mas pela alegria em ver sua família sempre reunida à mesa.

É por essas e outras que meus pais nunca deixaram eu ter uma TV no quarto e que as refeições fossem feitas unicamente com todos juntos à mesa, longe da TV ou separados. Foi a partir desse modo de vida que veio desde meus avós que criei meu carinho pela cozinha: eu nunca consegui enxergar o ato de cozinhar como um ato de necessidade, mas sempre como um carinho não só pelos outros como a mim mesmo. Adoro deixar meu celular no quarto quando vou à cozinha. Olhar o que tenho na geladeira e pensar o que posso fazer ali. Guardar esse momento onde faço almoço ou jantar – mesmo que só pra mim mesmo – como um momento em que paro de pensar em tudo do mundo e vivo um pequeno prazer. Ligo uma música, tomo uma taça de vinho. Cozinhar virou minha profissão e foi pra manter esse gostoso e quentinho que cozinhar me dá que eu decidi não trabalhar em restaurante: quero poder colocar a música, quero poder ter o meu tempo. Pra colocar um copo lagoinha com uma rosa do lado do fogão igual minha avó fazia e deixar a vida ser um pouco mais tranquila.

As transformações no nosso jeito de comer acontecem quando a gente tem paciência e simplicidade: escolher o que vai comer, pensar no que gosto de comer, sem grandes restrições. Li um artigo da Vida Simples que me fez abrir um sorriso: “Quanto mais comida de verdade consumimos, mais nosso corpo se sente bem, nutrido e saudável. Todo esse processo faz com que ele continue pedindo pelos alimentos que conversaram conosco de uma forma positiva, recorrendo cada vez menos aos industrializados e aos chamados ultraprocessados (aqueles cheios de conservantes e aromatizantes).”

Comer é algo que me faz feliz. Saber comer sem exageros, ter variedade e com comida de verdade, feita com emoção, bons ingredientes e uma boa música pra cantar segurando uma abobrinha italiana na mão como se fosse o microfone. Assim sirvo em pratos coloridos os mais puros sentimentos, dos quais compartilho com cada um que resolveu abrir um sorriso, esquecer o celular e compartilhar um bom momento à mesa. Assim me lembro de novo da minha avó ao me mandar de volta pra casa: sempre com um embrulhinho de papel alumínio cheio de doce de leite em pedaços. Embrulhinho que eu deixava na bancada ao lado da geladeira e que me fazia pensar nela todas as vezes que eu ia, quietinho quietinho, pegar um pra comer no meio da tarde.

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