wanderlust #1 – lot e aveyron – a comida

wanderlust #1 – lot e aveyron – a comida

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Um dos eventos mais esperados por mim enquanto em Paris é o anual Marché Flottant du Sud-Ouest (mercado flutuante do sudoeste). Ele sempre acontece no último final de semana do verão – em 2014 será nos dias 19, 20 e 21 de setembro – em barcos e tendas na beirada do Sena, mais ou menos na altura da Notre Dame. Os produtos são incríveis, a comida é incrível, mas infelizmente só acontece uma vez por ano.

É por isso mesmo que adorei poder ver tudo aquilo na própria região. É um lugar agrícola, e muitos dos patos consumidos na França são criados aqui. É bem barato comprar produtos de pato por lá, do magret ao fois gras. Mas minha paixão foi descobrir as saucisses sèches de canard – algo como linguiça defumada de pato – são deliciosas e você encontra pra comprar pacotes delas em boucheries (açougues) ou supermercados. Você encontra isso em Paris também, mas dá pra achar umas artesanais incríveis no Aveyron e Lot.

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Durante o verão, existe um mercado dos produtores que roda toda a região. Dá pra pesquisar em qual cidade estará a cada dia, e se programar pra estar em uma num dia que ele estiver, porque vale a pena uma visita. Consegui ir em Villefranche-de-Rouergue, numa sexta-feira à noite (que ainda era dia com o sol se pondo depois de 9 horas!). O interessante desse mercado é que ele não é um mercado pra se comprar verduras, frutas, carnes, etc. Ele é um mercado totalmente dedicado à comida. Lá consegui provar um pouco de algumas comidas típica: aligot (um creme de batata e queijo), truffade (um refogado de queijo, batata e cebola), cou farcis (pescoço de pato recheado com fois gras – eles retiram o osso e recheiam), farçous de verdure (uma espécie de crepe que mais parece um hambúrguer, feito com espinafre e ervas), doces como a torta de nozes da região e também o famoso gâteau à la broche, que é um bolo assado na brasa! Em um cone num espeto rotatório vão jogando com a concha a massa, pouco a pouco, que vai rodando e cozinhando com o fogo. A massa é bem simples, feita com açúcar, ovos e farinha, e o bolo fica parecendo um pinheiro. Achei um video pra quem quiser ver como é:

Diz que o famoso Coq au vin vem daqui também, mas isso é uma discussão que perdura há muitos anos: não só o Aveyron, mas a Bourgogne, a Alsace, Champagne e Auvergne também são departamentos que dizem ser os pais desse prato típico. Conta-se que esse prato surgiu em 50 a.C., quando Júlio César invadiu a Gália (região da época que pega grande parte do território atual da França, Bélgica e um pedaço da Itália). Um chef de cozinha enviou um galo à César, como símbolo da bravura dos gauleses, e esse então o convidou para jantar com ele, servindo o tal galo enviado cozido no vinho.

Outro prato que não é exatamente do Aveyron e Lot mas é dali de perto, no Sudoeste, que é bem conhecido é o Cassoulet. O Cassoulet é conhecido por brasileiros como a feijoada francesa, porque se assemelha na essência – apesar do gosto ser diferente. O Cassoulet é originário das cidades de Toulouse e Carcassonne, e se chama assim porque é cozido em uma cassole – em bom português, panela de barro. É feito com feijão branco, molho de tomate e carnes, geralmente carne de porco, linguiça e confit de pato e de ganso. É uma delícia e vi em todos os menus de restaurante que passei em Saint-Cirq Lapopie.

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Sobre os restaurantes da região, não tenho muitas indicações a fazer, eu entrava no primeiro que achasse o menu interessante, e também acabei cozinhando muito em casa. Não tive nenhuma experiência ruim. Mas reservei uma data especial (aniversário de namoro) pra um restaurante também especial: O Vieux Pont, em Belcastel. É um restaurante que possui 1 estrela Michelin, e que funciona unicamente na base de 3 menus fixos que eles mudam mensalmente. O menu mais barato, com 3 pratos, custa 30 euros no almoço; o intermediário, com 5 pratos, 55 euros; o mais caro, de 7 pratos, 70 euros. No jantar é um pouco mais caro, e é bom fazer reserva com alguma antecedência principalmente em épocas mais movimentadas como primavera e verão. São menus bem criativos, mas ao mesmo tempo um pouco fincado no que é da região, e isso pra mim o faz ainda mais interessante. Foi lá que comi a melhor carne de boi que já provei. Não me esqueço também das sobremesas… Sim, após 6 pratos vem a sobremesa, mas não é só uma, vem uma bandeja com 5 mini sobremesas incríveis. Sou bem enjoado com sobremesa de restaurante e essas eram realmente incríveis (com excessão da de chocolate, que era boa mas não incrível – mas é que eu não gosto muito de sobremesas com chocolate). hotelbelcastel.com

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Só não dá mesmo pra passar pela região sem comer o aligot. O aligot ficou famoso aqui no Brasil por ser o grande hit do cardápio do D.O.M. do Alex Atala. Ele consiste em um purê de batata misturado com creme de leite e muito queijo (aqui o Atala faz com Gruyère, mas na região se usa normalmente o Tomme embora aceitem variações com o Cantal também). É importante que as batatas sejam cozidas com um dente de alho e duas folhas de louro pra dar sabor, e depois espremidas e em seguida misturadas com o creme de leite. O purê é colocado numa panela em fogo baixo e aos poucos vai-se colocando fatias do queijo e mexendo constantemente (não pode parar), até que tudo esteja bem homogêneo. O mais incrível é levantar a colher e ver o quão elástica essa massa fica: sabe aquele queijo puxento? Então ela vira uma mistura puxenta igualzinho. Pra quem se interessar, a proporção da receita é de 800g de batata para 400g de queijo e 200g de creme de leite. Na foto eu estava no mercado dos produtores, pedi à cozinheira para fotografar (lá era um panelão!) e ela foi subindo a colher, subindo, subindo… É impressionante!

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wanderlust #1

parte 1: o lugar

parte 3: receita de truffade

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