carta amarela #109 – o que vemos e o que somos

carta amarela #109 – o que vemos e o que somos

Cancún, 25 de abril de 2015

Queridos amigos,

Eu ouço cada um falar de um lugar. Alguns amam Paris. Alguns nunca “sentiram” a cidade. Alguns preferem alguma praia paradisíaca. Outros Nova York. Tem aqueles que viajam pros confins da Ásia a descobrir algo bem diferente. Há os que preferem ir pro mesmo resort ano após ano. Cada um no fundo tem suas próprias viagens, mesmo indo a um mesmo lugar que muitos outros turistas. Acabei de fazer uma viagem em família pra Cancún, um lugar que eu nunca pensei em conhecer por não encaixar muito no que gosto como viagem. E foi aí que ao invés de me sentir num lugar onde não encaixo tentei descobrir o que me movia por lá: não só as águas lindas do mar, mas descobrir que por trás daquela casca de riqueza da cidade, os vilarejos em volta eram cheios de gente que ganha muito pouco, que vivem em casas de portas e janelas coloridas e usam bicicletas pra se locomover.

Sempre cruzo por aí com pessoas a viajar. Tem daquelas que querem comprar tudo. Fazem do mundo um grande shopping center. Talvez resida aí sua segurança em não se jogar no mundo – o mundo chamado “consumo” essas pessoas já conhecem bem de casa mesmo. Acabam comprando aquelas mesmas marcas que comprariam em sua cidade natal, mas claro, usam a frase: “foi muito mais barato comprar lá!”.

Há aqueles que precisam registrar todos os minutos em fotos e filmes. Se fecham diante de suas lentes e voltam pra casa com milhares de fotos, que talvez nunca sejam triadas pra achar aquelas poucas pérolas que verdadeiramente resumem toda a viagem e que sempre vão lembrar um tempo bom quando vistas. Existem também os que fazem roteiros milimétricos do que vão viver. “É pra não perder um minuto sequer!” – alguns dizem – “Assim não vou deixar de ver tudo o que importa em poucos dias”. E esquecem de ir lá simplesmente viver. De poder dormir um dia até mais tarde se assim lhe convier. De descobrir um programa inusitado no meio do caminho ao invés daquele museu que a gente já conhece por tantas fotos, filmes.

Há também os que não planejam nada, nem reservam hotéis, simplesmente vão. E passam sim os maiores apuros possíveis. Mas quer saber? São talvez esses apuros as histórias que vão ficar pra contar. As lembranças mais cheias de cores e vida. Há os que acham que uma viagem vai mudar totalmente a vida. Talvez até vá, mas ao colocar tantas expectativas nessa mudança de vida, talvez se frustrem mais do que aproveitem pra aprender.

No fundo quem faz a viagem somos nós mesmos, ninguém mais. Em viagens somos eternos solitários em frente a um mundo novo, a experiências novas que nos fazem ver nossas próprias nuances internas. E aproveitar pra aprender. Com os franceses, por exemplo, aprendi a falar mais baixo, a comer de tudo e aproveitar todos os minutos que o sol estiver no céu. Com italianos, aprendi a querer conversar com todo mundo mesmo que a gente não entenda nada da língua deles. Com espanhóis aprendi a festejar, com os portugueses a fazer doces incríveis. Com ingleses aprendi que a gente pode ter os cabelos mais loucos de cores mais improváveis. Com australianos aprendi a ser mais aventureiro. Com chineses aprendi a ser mais organizado. Com os mexicanos, nesses dias, aprendi a estar sempre sorrindo. Comigo mesmo aprendi que sempre que viajo volto sendo alguém melhor. Com novos conhecimentos. Novas experiências. E também, menos medos nessa bagagem ainda pesada que carrego sobre as costas.

Nos meus últimos momentos antes de partir sentei-me na areia pra ver o mar se encontrando com ela. O vento vindo de lá de longe. Algumas pessoas caminhando, outras correndo. Uma de bicicleta. Um salva-vidas em sua cadeira, dois homens jogando vôlei. A vida foi passando, calma, como as ondas a trazer algas pra beirada da praia. Tem gente sempre ancorado em algum lugar. Tem também aqueles que pairam leves pelo mundo. Pra quem mora no meio de um continente como eu a oportunidade de ver o mar é sempre mágica. Me faz brilhar os olhos toda vez, como se aquela fosse a primeira.

Um abraço do mar, dessas ondas que te envolvem de uma só vez, que, como diz um amigo, nos “bouleversam” inteiros.

Gui

P.S.: Hoje é o último dia pra quem quiser adquirir o livro na pré-venda. Depois disso o livro só será vendido novamente no final de maio, depois que forem enviados todos os livros de quem comprou até hoje. Pra quem quiser é só clicar AQUI.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×
  • Renata diz:

    Gui do céu, quanta lindeza <3
    acho viajar a coisa mais gostosa do mundo e morro de preguiça de gente me cobrando fazer (ou não) as coisas. Das coisas mais gostosas da vida é sentar em uma praça, no chão e olhar as coisas acontecendo. Como se você não estivesse ali e como se as coisas estivessem acontecendo só pra você, como se elas só existissem porque você tá ali. Fiquei maravilhada com as fotos que você postou no insta, você tem uma delicadeza inigualável pra registrar as coisas que sempre me cativa.
    E cê não imagina o tamanho do sorriso que eu dei quando entrei na página do projeto e vi que tinha atingido a meta! Como se o livro fosse meu! Haha. Mas será, um deles. <3
    Parabéns, Gui. Fico muito feliz por essa vitória sua. E eu espero que seja mais uma delas.

    • gpoulain gpoulain diz:

      é ruim quando pessoas cobram da gente coisas que não deveriam né? do tipo, não julgo alguém que deixou de ver coisas lindas pra ficar fazendo compras. é o dinheiro dela, ela faz o que quer da viagem. e cada um vê belezas onde quiser, cada um tem seu olhar. fico feliz que tenha gostado das minhas fotos da viagem! :)

      atingi a meta sim e o livro sai no final de maio, já já eu aviso tudo direitinho aqui!

  • Nani Nascimento diz:

    Cancum deve ser mágico mesmo. Um dia ainda conheço. Viajar é bom demais. Concordo com você, “sempre que viajo volto sendo alguém melhor” !

  • Luis diz:

    carta linda, gui! sobre o assunto que mais gosto e vc sabe disso :)
    sempre pensei que todo lugar tem seu encanto, não importa qual imagem foi criada para vender seus pacotes turísticos. É normal não priorizarmos tais lugares, mas quando acontece uma viagem dessas, descobrir o que existe além do roteiro convencional é uma delícia. Tem sempre uma vila de pescadores, um bairro amigável e colorido, um restaurante delicioso escondido, pessoas incríveis e sorridentes, nos lugares mais inesperados. Essas coisas que enriquecem o passeio, fazem a gente de fato conhecer o lugar e de quebra nos conhecer melhor, ou, no mínimo, se renovar a cada viagem!

    • gpoulain gpoulain diz:

      sei sim que você ama o assunto, querido!
      é muito legal ver como você vê, e fui feliz tentando enxergar assim também!
      um abraço!

  • Diana diz:

    adoro suas cartas, esta em especial! Percebi que já viajei sendo cada um dos tipos descritos… E hoje em dia prefiro ficar um tempo na rotina dos que lá vivem mesmo! E bouliverser é meu verbo preferido, ever! Um beijo, seu lindo! Keep going ‘n writing!

  • Dorys diz:

    Olá Gui
    Apesar de te viajado pouco, ainda tenho projetos (que certamente irei realiza-los) de conhecer muitos outros lugares. Porém, acho que gente viaja também ao ler um texto como este… obrigada por esta experiência!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>