a caderneta vermelha

a caderneta vermelha

Há quase quatro anos recebi uma mensagem dura: “preciso conversar com você”. Lembro que atravessei toda a Rue du Chemin Vert pensando no quanto eu estava perdido naquele momento. O sol demorava a sair por entre as nuvens. Um vento gélido batia em meu rosto enquanto eu prosseguia pelo caminho.

Cheguei à Place des Vosges. O sol, já descoberto, quase se pondo, pareceu iluminar quase toda a extensão da praça. A grama, ainda bem verde, estava coberta de vários jovens e alguns casais. Era fim de tarde e todo mundo parecia aproveitar isso. Alguns velhinhos sentados em alguns dos muitos bancos em volta da praça. As árvores com as folhas ligeiramente vermelhas demonstravam que o outono havia começado ali. Dei uma volta em busca dele, mas não o vi. Alguns turistas tiravam fotos em frente a estátua central. Sentei-me na grama. Resolvi esticar as pernas e acabei por recostar todo o meu corpo, a olhar o céu. Senti no rosto e nas mãos o bater de gotinhas de água. O vento forte as trazia de uma das fontes da praça. Ele me disse que não estava pronto para um relacionamento.

Poucos meses depois nos reencontramos e vivemos um bom tempo juntos. Há quase dois anos recebi a mesma mensagem. Dessa vez eu sabia exatamente o que esperar. Precisei sair de casa. Atravessei quase toda a cidade a pé. Várias ruas que não me lembro de ter visto ou passado. Precisava chegar até o pé da Torre Eiffel. Nunca tive muito feitiço por ela na cidade. Só senti que precisava chegar lá. Sentei-me no Champs de Mars e fiquei reparando o entorno, o movimento de tanta gente. Pra cada um aquilo é alguma coisa em um momento.

O fim do dia começava a chegar e o encontrei em um bar na beirada de casa. “Nos tornamos amigos, não amantes”, ele disse. Como daquela vez há quase dois anos, tentei não chorar. Da terrase olhei para o movimento das pessoas na rua, daquele sol de finalzinho de dia. Saímos para andar um pouco, alguns quarteirões. Eu não queria falar mais nada. Não quis olhar mais para ele. Coloquei os fones de ouvido e pensei em colocar exatamente a mesma Lost Someone da outra vez. Mas não senti que dessa vez perdi alguém.

Já longe da casa em que ele morava, levei minhas coisas pra um apartamento temporário. 2, Rue du Grand Prieuré, quase em frente ao metrô Oberkampf. Dessa vez quis ouvir Everybody’s Got to Learn Sometime, do Beck. Organizei minhas coisas. Vasculhei as coisas que o morador deixou ali, decorando o lugar pra quem o alugasse via airbnb. Um livro rosa, metálico. Prenez soin de vous, dizia o título. “Cuide de si”, repeti, em português. Passei a noite vasculhando aquele livro. A autora, a francesa Sophie Calle, havia perdido alguém. Alguém que terminou uma relação com ela através de um e-mail que terminava com essa frase. Ela pegou esse e-mail e pediu pra 107 mulheres de diferentes profissões interpretarem a carta. Uma sexóloga, uma diplomata, uma jornalista, uma cantora (Carla Bruni!), tantas outras. É interessante ver como cada um reage a um fim de relacionamento. E eu havia vivido aquilo naquele mesmo dia.

Dias atrás. Passando numa livraria a caminho do aeroporto bati o olho num livro francês. A caderneta vermelha. Parecia meio bobo, mas era uma história em Paris, tudo o que eu precisava pra passar aquelas horas em viagem. Comecei a ler e me deparei com um dos protagonistas – Laurent, um livreiro – e já sorri. Besteira minha mas adoro personagens livreiros. A outra protagonista, Laure, tem como livros preferidos os da Sophie Calle.

É engraçado como um livro que não tem nem como tema fim de relacionamentos me fez pensar tanto nos meus pela constante citação ao trabalho de uma artista que um dia provocou um turbilhão em minha mente. E o quanto isso me fez me apegar a uma história que eu talvez não daria tanto crédito: Laure foi assaltada na porta do seu prédio. O ladrão levou sua bolsa, pegou a carteira e celular e a jogou em cima de uma lata de lixo. Laurent encontra a bolsa, e, com aqueles poucos pertences sem documentos e uma caderneta vermelha de anotações, resolve descobrir quem é a dona da bolsa. A história pode até ser previsível, mas não deixa de ser repleta de elementos charmosos como as referências a livros e escritores.

Ao terminar o livro, um quentinho no coração. Chorei um pouco lembrando daquela noite em que descobri Sophie Calle. Coloquei Everybody’s got to learn sometime pra tocar de novo. “Troque o seu coração, olhe ao redor de você”, Beck dizia no meu ouvido. Resolvi escrever. É que é ali, no silêncio e nas letras, em que sempre encontro o amor que falta em todos os amores.

acadernetavermelha02

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